inside notes #08 — a nostalgia millennial
e como O Diabo Veste Prada 2 tentou.
Ontem eu fui assistir ao filme O Diabo Veste Prada, então essa é uma review do filme sob o olhar de uma publicitária muito fã de cinema, moda, mercado de luxo e mercado editorial. Então já aviso que esse artigo tem spoilers dos filmes.
Eu preciso começar explicando o que me faz amar tanto o primeiro filme (prometo que tudo vai se conectar no final)
Eu cresci nos anos 2000, sendo muito bem servida de filmes de comédia ou comédia romântica onde tínhamos personagens principais independêntes, incríveis, cheias de estilo e que trabalhavam em uma revista ou em alguma agência de publicidade. Por isso, era de se esperar que eu também me apaixonasse por essa ideia de independência e um emprego cool.
Então quando eu assisti O Diabo Veste Prada pela primeira vez e vi que todas as escolhas que tomamos trazem consequências e que muitas vezes você vai ter que lutar muito pra conquistar o emprego dos sonhos, eu pude trazer uma carga muito mais significativa para a minha vida e o que eu faria com ela depois de formada.
Lembro de torcer pela Andy em todas as vezes que assisti esse filme, lembro de odiar o namorado dela por ser tão frio e não aceitar as mudanças que estavam acontecendo na vida dela. Lembro de admirar a Miranda por ser tão forte e também de sentir uma dorzinha por ela pelo tanto que ela teve que abrir mão pra se tornar a figura de poder e influência que ela é.
Posso concluir dizendo que o filme gera identificação, te dá vontade de ir pra cidade grande e tentar a sorte numa revista, jornal ou agência. Você torce pela personagem principal, quer ver ela tendo sucesso e conquistando o merecido respeito da chefe. Sem contar as cenas icônicas do filme, a trilha sonora impecável e a fotografia que te faz sentir parte da história.
Então eu tinha boas expectativas para a sequência. Não fazia ideia do que poderia ser a história, já que o primeiro filme termina bem fechadinho. Eu só não esperaria ver tanta luz clínica, um roteiro mediano e a falta de arte em um filme que fala de moda.
Vamos por partes. A junção de todos os fatores que vou falar agora é a razão de eu não ter gostado desse filme como eu esperava.
Fotografia
Antes mesmo de ir assistir ao filme eu já tinha sido impactada por carrosseis criticando a falta de coloração dos filmes, a falta de contraste, saturação e outros elementos que deixam um filme com uma estética diferenciada.
Eu tinha achado exagero, até ver o filme em si. Cores frias, clínicas, nenhuma tonalidade levemente quente ou uma atmosfera que transmita essa nostalgia, porque convenhamos, essa sequência foi pensada para nós que crescemos nos anos 2000 e que adoraríamos ver nossos personagens favoritos de volta na telona.
Na minha cabeça isso não faz sentido, porque o tema central do filme é a moda, e moda é uma forma de arte, e arte tem a ver com cores, texturas, sensações, referências, etc. E eu não vi nada disso. Não vi cores.
Aprendizado
Uma coisa que lembro de aprender com O Diabo Veste Prada 1, foi todo o trajeto que uma peça percorre desde sua primeira exibição num desfile de alta costura até chegar na “massa”. Lembro disso desde a infância e foi algo que me fascinou o suficiente pra eu trazer o mercado de luxo como tema central do meu tcc.
Lembro de aprender sobre cores, sobreposições e sobre o mercado da moda com o primeiro filme.
Dessa vez, eu não aprendi nada. E eu poderia ter aprendido! Afinal, um dos temas abordados no filme é essa transição da mídia física para a digital, como tem sido a adaptação de meios e como as empresas tem feito essa transição. Achei que isso seria mais abordado, já que o filme começa com a Andy fazendo uma crítica ao jornalismo. Achei que o filme traria reflexões e críticas à inteligência artificial no mundo da arte, por exemplo.
Outro assunto abordado no filme de forma super breve mas que também teria sido incrível de ver mais sobre é como o mercado de luxo se utiliza de branding pra gerar valor aos produtos, coisa que é brevemente mencionada pela Emily em determinado momento da história.
Entendo que aprendemos bastante no primeiro filme porque a Andy também está aprendendo. Mas ela evoluiu tanto como pessoa nesse intervalo de 20 anos da história que não tem como ela não ter um ensinamento pra passar sobre jornalismo, sobre gestão de crise (motivo de ela voltar pra Runaway) e sobre gestão de carreira.
Moda
Sei que moda tem uma grande parte subjetiva, mas pra um filme que foca na arte e na moda, eu vi muito pouco disso tendo destaque. Sinto que o que antes (no primeiro filme) veio de forma natural, como as roupas que o Nigel emprestava para a Andy, dessa vez veio só como uma referência ao primeiro filme, não teve um propósito mais simbólico por trás, e nisso eu até consigo passar pano.
Mas pai amado alguns looks foram tão feinhos que eu fiquei meio chocada. Tem uma cena que o Nigel faz todo um drama pra ela não deixar nada acontecer com o vestido que eu jurava que seria algo lindíssimo, mas quando chegou o vestido de fato eu pensei “ué, ela vai trocar de roupa né?”. Então até recebemos alguns visuais no filme, mas isso não é conversado, modas ou tendências não são trazidas à tona.
Queria que esse filme tivesse discutido mais os limites da inteligência artificial (que é mencionada rapidamente no filme) dentro da arte e da moda. Queria que esse filme fosse um convite à arte, aos desafios do mercado da moda, do mercado editorial, e não uma batalha comercial que deixava os funcionários na berlinda pra uma demissão em massa. Queria que esse filme fosse uma carta de agradecimento às mídias físicas, à nostalgia e à influência da moda.
Pra não dizer que não gostei de nada desse filme, eu gostei muito de ver mais humanidade na Miranda. Lembro muito bem de como ela era no primeiro filme, e gostei de ver algumas rachaduras na máscara de durona da personagem, e de como isso deixou ela mais humanizada.
Achei o roteiro ok, acho que eles poderiam ter escolhido um dos temas que trouxeram no filme e abordar com mais profundidade ao invés de trazer várias breves menções. Também achei muito legal um maior destaque para o Nigel, que querendo ou não, acompanha a Miranda há anos. Então ver o trabalho dele sendo reconhecido e valorizado me deu um quentinho no coração.
Gostei de ver um possível relacionamento para a Andy e que dessa vez não desmerece o trabalho dela, mas sim busca entender e aprender o que for possível. Precisava acontecer ao mesmo tempo que a carreira dela estava toda instável? Não precisava, mas a vida não tem data pra acontecer, né?
Gostei de ver a versão mais adulta da Andy e da Emily, da personalidade de ambas que, mesmo já mais adultas, não perderam sua essência. Apesar disso, não fui muito fã da última parte do filme, onde a personagem da Lucy Liu que inicialmente é colocada como essa figura reclusa magicamente aparece pra salvar a pátria, sem contar na traição da Emily.
Por fim, achei um filme mediano, serve pra revermos personagens queridos, mas sem sair do raso. Tudo pelo bem da nostalgia millennial.
Espero que não tragam mais sequências desse filme igual estavam (ainda estão?) tentando fazer com Mamma Mia. Algumas coisas podem ficar mais queridas no coração através da memória afetiva intocada.








Eu esperava mais do tal vestido tb, quando apareceu fiquei bem blasé. Eu gostei do filme, mas vc trouxe pontos que poderiam tornar o filme bem melhor mesmo.